|
CPR Centro de Pesquisas Religiosas |
Conversações
Internacionais entre Batistas e Católicos Romanos, de 1984 a 1988
Prefácio:
O relatório aqui apresentado é o resultado dos cinco encontros entre
os batistas e os católicos romanos, nos anos de 1984 a 1988. Essas conversações
foram patrocinadas pela Comissão de
Doutrina Batista e Cooperação Entre Igrejas, da ABM, e o Secretariado
do Vaticano pela Promoção da Unidade Cristã. Foram estas as primeiras
conversações entre os dois corpos.
O nosso tema predominante foi “O
Testemunho Cristão no Mundo de Hoje”. Nosso objetivo principal foi chegar
a um mútuo entendimento de certas convergências e divergências entre as famílias
batistas e católicas romanas de confissão mundial. Objetivos adicionais foram
incluídos:
1. - Estabelecer relações e manter um canal de comunicação através
da conversação para um mútuo e também auto-entendimento.
2. - Identificar novas possibilidades e também esclarecer as
dificuldades existentes em relação a um testemunho comum, tendo em vista a
atual situação mundial e o mandato de Cristo para proclamar o Evangelho.
3. - Conhecer os preconceitos existentes entre as duas famílias
confessionais mundiais.
Durante essas conversações iniciais, quando experimentamos a presença
de Deus e suas bênçãos, esses objetivos foram alcançados em ampla escala. O
que alcançamos nessas conversações foi um encorajamento a esforços similares
nos diversos níveis da vida eclesiástica.
Em cada ocasião o trabalho principal foi a discussão teológica.
Documentos eruditos foram apresentados e discutidos pelos participantes. Estudos
bíblicos relacionados a temas selecionados, visitas a comunidades locais, nos
lugares onde aconteciam os encontros, enriqueceram as conversações. Em cada
lugar líderes das comunidades batista e católica romana visitaram o grupo e
compartilharam com estes apoiando com a sua boa vontade e orações.
Oferecemos este relatório com agradecimentos aos corpos que
patrocinaram nossas conversações. Nossos dezesseis participantes se tornaram cônscios,
do Espírito de Deus agindo entre nós, e formamos, no decorrer destes anos,
amizades que têm sido de completo encorajamento e edificação. À medida em
que este relatório é concluído, lembramo-nos amistosamente de um dos nossos
membros - o Rev. Jerome Dollard, OSB, o qual foi repentinamente convocado desta
vida, no dia 26/12/1985.
Os que entre nós tomaram parte nas conversações consideraram nossa
experiência conjunta como um grande presente de Deus. Esperamos que outros
batistas e católicos romanos recebam a graça de uma experiência semelhante.
É nesse espírito que oferecemos este relatório aos batistas, aos católicos
romanos e a outros, para um estudo e uma reflexão em completo espírito de oração.
Bispo Bede Heather - Dr. David Shannon
Co-Presidente - Co-Presidente
Atlanta, 23/07/1988.
CONVOCAÇÃO
PARA TESTEMUNHAR DE CRISTO NO MUNDO DE HOJE
Um relatório sobre as conversações internacionais entre os batistas e
os católicos romanos
I - As Conversações em Revista
1. - Desde o Concílio Vaticano II, (1962-1965), os batistas e os católicos
romanos iniciaram conversações entre eles, em diversos níveis. Contudo,
somente nos últimos cinco anos eles mantiveram uma série de conversações a nível
internacional. Patrocinadas conjuntamente pela Comissão
de Doutrina Batista e Cooperação Entre Igrejas, da ABM, e o Secretariado
do Vaticano pela Promoção da Unidade Cristã, tais conversações têm
sido focalizadas sobre um assunto de preocupação comum aos dois corpos, isto
é, “O Testemunho Cristão no Mundo de
Hoje”.
2. - Numa série de cinco conversações, os participantes batistas e
católicos romanos, compostos de líderes e eruditos eclesiásticos, descobriram
uma considerável soma de consenso sobre itens gerais e específicos: uma
concordância centrada na revelação salvadora de Jesus Cristo, a necessidade
de um compromisso pessoal com Deus em Cristo, a obra contínua do Espírito
Santo, o imperativo missionário que emerge da atividade redentora de Deus em
favor da humanidade. Houve, é claro, algumas diferenças significativas, tanto
nos itens gerais como nos específicos. Muitas vezes notamos que essas divergências
surgiram entre os representantes da mesma comunhão, bem como entre os
representantes das duas comunhões.
3. - As conversações, ocorridas anualmente em várias localidades,
exploraram os seguintes tópicos relativos ao testemunho comum. O primeiro
encontro aconteceu em Berlim Ocidental, em 18-21/07/1984 focalizando “O
Evangelismo/Evangelização: A Missão da Igreja”.O segundo reuniu-se em Los Angeles, em 24-30/06/1985, dirigido aos
itens de “Cristologia” e “Conversão/Discipulado”
e aspectos do “Testemunho de Cristo”.
O terceiro foi convocado para a Cidade
de Nova York, em 02-07/06/1986, e explorou os assuntos teológicos sob o título
“A Igreja como Koinonia do Espírito”.
O quarto, ocorrido em Roma, em
13-18/07/1987, dirigiu-se aos itens específicos, estabelecendo o meio de
melhorar o testemunho cristão comum, isto é, o proselitismo e as restrições
da liberdade religiosa. O quinto,
localizado em Atlanta, Geórgia, em 18-23/07/1988, procurou colher os frutos da
série completa.
II - Declaração Comum
4. - Esta declaração não oferece um resumo das sessões individuais.
Ela tenta, talvez, sintetizar as discussões sobre os cinco anos e articular ou
compartilhar a resposta à revelação de Deus em Jesus Cristo, conforme nos é
entregue na Bíblia e na fé e prática de nossas respectivas comunidades.
A - Nosso Testemunho de Cristo
5. - Nosso testemunho comum repousa sobre a fé compartilhada na
centralidade de Jesus Cristo como a revelação de Deus e único mediador entre
Deus e a humanidade (1 Timóteo 2:5). Chegamos ao conhecimento de Jesus através
das Escrituras, especialmente do Novo Testamento, o qual compartilhamos em comum
como a fonte e suporte de nossa fé. Esse conhecimento é experimentalmente
confirmado pelo testemunho interior do Espírito Santo, e entregue pela
comunidade de crentes, sendo autenticado pelo testemunho autorizado da Igreja,
através das eras. Estamos também cônscios de que Deus estabeleceu em Cristo
“o mistério de sua vontade” (Efésios 1:9). Toda
a linguagem humana é inadequada para expressar o mistério da graça de Deus e
do seu amor manifestado na vida, morte e ressurreição de Jesus. Esforçamo-nos,
com Paulo, nosso guia, no sentido de “perceber a...
compreensão do mistério de Cristo”. (Efésios 3:4)
6. - A distinção entre a pessoa e a obra de Cristo, conquanto tendo
sido de ajuda à teologia antiga, não capta as riquezas do testemunho bíblico
sobre Jesus Cristo. As declarações cristológicas no Novo Testamento expressam
a fé de indivíduos e grupos. Nas formas mais recentes, tais como encontramos
na ressurreição da 1 Coríntios 15:1-11, de Paulo, e nos pronunciamentos
“kerigmáticos” de Atos 2:22-24; 3:14-16; 4:10-12 e 10:40-43, Jesus é
proclamado como Aquele que Deus levantou (ou fez Senhor e Messias) pelos nossos
pecados ou em cujo nome somos salvos. A doutrina da pessoa de Cristo não pode
ser separada da mensagem da obra salvadora, a qual Deus completou em e através
de Cristo.
7. - O Novo Testamento apresenta Jesus de maneiras diferentes. Os
evangelhos sinópticos o apresentam como Aquele que proclama o advento do reino
de Deus e o decreto dos seus mistérios (Marcos 1:14-15). Ele convoca os
pecadores ao arrependimento (Lucas 5:32) e vende o poder do mal (Lucas 11:19-f).
Ele se coloca a favor dos enfermos e dos marginalizados pela sociedade (Lucas
4:16-19). Ele reúne os discípulos que deviam estar com ele e serem enviados
(Marcos 3:13-15). Ele possui a exclusiva familiaridade com Deus e ensina os que
o seguem a orar a Deus como o Pai (Mateus 6:7-15) e a andar em amorosa confiança
no poder e na presença de Deus (Mateus 6:25-33). Ele convoca aqueles que iriam
segui-lo a amar a Deus e ao próximo de todo o coração, mente e alma (Marcos
12:28-34) e dá a sua vida em resgate para que os outros se tornassem livres
(Marcos 10:45).
8. - O Evangelho de João é uma rica fonte de compreensão de Cristo e
a sua linguagem e perspectiva deram contorno à formulação cristológica dos
concílios. Ele foi escrito para que as pessoas pudessem crer que Jesus era o
Cristo, o Filho de Deus, e que, crendo, tivessem vida em seu nome (João 20:31).
Jesus é apresentado como o Verbo, que estava no princípio com Deus (João
1:1-3). Esse Verbo se fez carne e habitou entre nós de modo que sua glória
pudesse ser vista. Ele era cheio de graça e verdade (João 1:14). O acesso à
vida eterna veio pelo conhecimento do único Deus verdadeiro e de Jesus Cristo a
quem ele enviou (João 17:3). O acesso a essa vida eterna veio através da fé.
O cristão era convocado a confessar, com Marta:
“Sim, Senhor, creio que tu és o Cristo, o Filho de Deus, que havia de vir ao
mundo” (João 11:27). Através da morte e ressurreição
de Jesus foi entregue ao Espírito Santo [habitando nos apóstolos] a remissão
dos pecados (João 20:22-23). Através do testemunho do Paráclito, os discípulos
se tornaram testemunhas de Cristo (João 15:26-27). Antes de morrer, Jesus orou
por eles, pedindo que o Pai os guardasse em seu nome e os fizesse um como ele e
o Pai (João 17:11).
9. - Jesus é proclamado como Aquele que descendeu de Davi segundo a
carne, tendo sido designado Filho de Deus em poder, conforme o Espírito de
santidade pela sua ressurreição dos mortos (Romanos 1:3-4). Ele é também o
servo sofredor e o Filho do Homem, que veio para servir e não para ser servido
(Marcos 10:45). Ele é o Salvador nascido para nós, na casa de Davi (Lucas
2:11), Aquele que “esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma
de servo, fazendo-se semelhante aos homens”
(Filipenses 2:7).
10. - A obra de Cristo é apresentada sob uma variedade de metáforas,
tais como justificação (Gálatas 2:16; Romanos 3:26-28; 5:18); salvação (2
Coríntios 7:10; Romanos 1:16; 10:9-10; 13:11); expiação e redenção (Romanos
3:24,25; 8:32) e reconciliação (2 Coríntios 5:18-20; Romanos 5:10,11). Essas
expressões apontam para o evento ontológico, objetivo, quando Deus iniciou a
restauração da humanidade decaída, levando-a a reconciliar-se consigo mesmo,
tendo inaugurado uma renovação da criação através da morte de Cristo na
cruz e de sua ressurreição dos mortos. A oferta da salvação de Deus em
Cristo é recebida pela fé, que é um dom de Deus, o qual “quer
que todos os homens se salvem, e venham ao conhecimento da verdade (1 Timóteo 2:4).
11. - A discussão do nosso testemunho de Cristo tem revelado que nossas
duas comunidades são unas na sua confissão de Jesus Cristo como Filho de Deus,
Senhor e Salvador. A fé em Cristo proclamada no Novo Testamento e expressa nos
quatro primeiros concílios ecumênicos é compartilhada por ambas as nossas
igrejas. Nossa discussão descobriu diferenças não significativas com relação
à doutrina da pessoa e obra de Cristo, embora algumas tenham surgido com
respeito à apropriação da obra salvadora de Cristo. Acreditamos que essa
comunhão de fé em Cristo deveria ser enfatizada e comemorada como base às
nossas discussões em outras áreas da doutrina e vida da Igreja, onde sérias
diferenças podem continuar.
12. - Conquanto afirmando que as Escrituras são a nossa fonte principal
da revelação divina em Jesus, damos pesos diferentes aos credos e declarações
confessionais. Os católicos romanos afirmam que a Sagrada Escritura e a sagrada
tradição “fluem da mesma fonte divina”
e que “a Igreja não retira somente das
Escrituras Sagradas a sua certeza sobre as verdades reveladas.” (Constituição
Dogmática Sobre a Revelação Divina, 9) A fé da Igreja expressa em seus
credos, através das eras, é a norma dos católicos. Os batistas, conquanto
afirmando os credos dos primeiros quatro concílios ecumênicos, produzindo
declarações confessionais em sua história, não os mantém como norma para o
crente individual ou para subseqüentes períodos da vida eclesiástica. Para os
batistas somente as Sagradas Escrituras são normativas.
B. - Chamada à Conversão
13. - Jesus inaugurou o seu ministério público, anunciando o advento
do reino de Deus e convocando as pessoas a se converterem e crerem no Evangelho
(Marcos 1:14,15). Logo em seguida, ele convocou os discípulos para segui-lo
(Marcos 1:16-20). Saulo, o perseguidor dos cristãos primitivos, tornou-se
Paulo, o apóstolo aos gentios, através de uma revelação do Evangelho de
Jesus (Gálatas 2:1-10). O mistério de quem Jesus é e do que ele fez por nós
só pode ser captado através da fé e da prática do discipulado cristão,
através da esperança e do amor (1 Tessalonicenses 1:3).
14. - Após sua ressurreição, Jesus disse aos discípulos que “em seu nome se pregasse o arrependimento e a remissão dos pecados,
em todas as nações, começando por Jerusalém”
(Lucas 24:47). Jesus os comissionou para que, após
a sua partida, eles fizessem discípulos de todas as nações, batizando-os e
ensinando-os a observar tudo que ele lhes havia ordenado (Mateus 28:16-20). Após
o Pentecoste, os discípulos começaram a proclamar o arrependimento e perdão
de pecados a todas as nações (Atos 2:5-13). Sob a orientação do mesmo Espírito,
que lhes fora dada no Pentecoste, a Igreja tem se esforçado para cumprir o
mandato de Jesus, na pregação e no testemunho e através das eras ela tem
renovado essa proclamação de conversão e perdão.
15. - A conversão é inatingível a todos que se opõem a Deus,
contrariando o ensino de Cristo, o Filho, e a obra do Espírito Santo. Esta
compreende o abandono da auto-centralidade do pecado pela fé em Cristo como
Senhor e Salvador. Converter-se é passar de um modo de vida para outro, marcado
pela novidade em Cristo (2 Coríntios 5:17). É um processo contínuo, de modo
que toda a atividade de um cristão deveria ser uma passagem da morte para a
vida, do erro para a verdade, do pecado para a graça. Nossa vida em Cristo
exige um contínuo crescimento na graça de Deus. A conversão é pessoal, mas não
particular. Os indivíduos respondem pela fé ao chamado divino, mas a fé vem
pelo ouvir a proclamação da palavra de Deus, devendo ser expressa numa vida
junto com Cristo, vida que se encontra na Igreja.
16. - Conversão e discipulado relacionam-se entre si como o nascer para
a vida. A conversão se manifesta numa vida de discipulado. Nos evangelhos,
Jesus convocou os discípulos a estar junto dele e a compartilhar do seu ministério
de proclamar o advento do reino de Deus, e trazer desse reino o poder de curar a
vida humana. Ele também os convocou a ser como ele, tomando as suas cruzes e o
seguindo, numa vida de amoroso serviço aos outros. Após a Páscoa e o
Pentecoste, as comunidades primitivas continuaram a anunciar as Boas Novas e a
testemunhar o poder salvador de Deus. Como aconteceu com Jesus, os discípulos
também foram perseguidos, mas pelo dom do Espírito Santo eles permaneceram fiéis
e prosseguiram anunciando o evangelho.
17. - Através de toda a história, Deus continua a convocar as pessoas
para seguirem a Jesus, pelo dom do Espírito Santo e pelo poder da fé, o Senhor
ressuscitado continua o seu ministério. O discipulado consiste no engajamento
pessoal com Jesus, no compromisso de proclamar o Evangelho e nas ações que
levem a cura e poder salvador de Jesus aos homens e mulheres de hoje. O discípulo
é norteado pelas Escrituras, pela adoração e oração, em todas as suas
formas, e obras de misericórdia a favor dos outros, na proclamação, instrução
e testemunho de vida diária. A Igreja, que pode ser chamada uma comunidade de
discípulos, reúne-se no nome e na presença do Cristo ressurreto. Essa
comunidade é convocada a compartilhar do dom recebido. Esse dom é um mandato
para, com incansável esforço, chamar todas as pessoas ao arrependimento e fé.
Uma comunidade de discípulos de Jesus é sempre uma comunidade missionária.
18. - Como batistas e católicos, ambos nos esforçamos para “ser
convertidos e crer nas Boas Novas” (Marcos 1:14), Contudo, a conversão e o
discipulado são expressos de modo diferente em nossas duas comunidades eclesiásticas.
Os batistas enfatizam a importância de uma experiência inicial de conversão
pessoal, quando o crente aceita do dom de Deus de o salvar e garantir-lhe a graça.
O batismo e sua entrada na Igreja são o testemunho desse dom, o qual deve ser
expresso numa vida de fiel discipulado. Para os católicos o batismo é o
sacramento através do qual a pessoa é incorporada a Cristo e nasce de novo
para compartilhar da vida com Deus. Este (batismo) sempre é uma conseqüência
da fé e, no caso de uma criança, considera-se que tal fé é suprida pela
comunidade. Os católicos falam da necessidade de uma vida de contínua conversão
expressa no sacramento da reconciliação (penitência), o qual na igreja
primitiva era às vezes chamado de “segundo batismo”. Em ambas as comunhões
as mudanças nas práticas da Igreja nos desafiam a considerar mais
profundamente a nossa teologia de conversão e batismo. Na recente publicação
instituída “Rito para a iniciação de Adultos”, os católicos romanos
afirmam que o batismo de adultos é o paradigma para uma completa compreensão
de batismo. Em algumas áreas do mundo, os batistas recebem o batismo em idade
muito tenra.
C - Nosso Testemunho na Igreja
19. - “Koinonia no Espírito”
(Filipenses 2:1, cf. 2 Coríntios 13:14) é uma descrição auxiliar da nossa
compreensão comum da Igreja. A palavra “koinonia” sugere mais do que está
implícito nos termos ingleses usados para traduzi-la, tais como
“companheirismo” ou “comunhão”. Baseado na idéia radical de
“compartilhar de uma realidade apoiada em comum”, ela foi usada de várias
maneiras pelos cristãos primitivos. Conforme a 1 Coríntios 1:9, os cristãos
foram “chamados para a comunhão de seu Filho Jesus Cristo nosso Senhor”, o que significa o mesmo que estar em Cristo,
ou ser membro do corpo de Cristo (1 Coríntios 12:12 e segs.); como
participantes em Cristo, participamos no Evangelho (1 Coríntios 9:23;
Filipenses 1:5); ou na fé (Filemom 6); ou na Ceia do Senhor (1 Coríntios 10:16
e segs.). Compartilhar da Ceia é compartilhar do corpo e sangue de Cristo
(verso 21). A comunhão com Cristo engloba a participação em sua vida (Romanos
6:8; 2 Coríntios 7:3), seus sofrimentos (Romanos 8:17; 2 Coríntios 7:3; Gálatas
2:19-20), sua ressurreição (Colossenses 2:12; 3:1; Efésios 2:6) e seu reino
eterno (Romanos 8:17; 2 Timóteo 2:12). Para Paulo koinonia com o Cristo
ressurreto é o mesmo que koinonia com o Espírito (2 Coríntios 13:14) e com
outros cristãos. Isso é mais do que um laço de amizade. Todos compartilham
juntos das bênçãos do Espírito e desse modo são obrigados a se ajudar
mutuamente. (Romanos 12:13) nas aflições (Filipenses 4:14), bem como nas bênçãos.
Na 1ª João, ser cristão significa ter koinonia com Deus - o Pai e o Filho (1
João 1:3,6) e com os outros (1 João 1:3,7). A ênfase é colocada na participação
ativa - andar e agir - como expressão de comunhão.
20. - A discussão das passagens supra citadas nos leva às seguintes
conclusões: 1). Que em e através de Cristo Deus colocou o fundamento da
Igreja; 2). Que Koinonia, tanto entre Deus e os seres humanos como dentro da
Igreja, é um dom divino; 3). Que o Espírito efetua a continuidade entre a
Igreja e Jesus. A unidade de uma humanidade diversificada, onde “não
há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea” (Gálatas 3:28), em um só corpo, jamais
poderia acontecer pela iniciativa humana. Ela depende antes de tudo da ação
divina através de Jesus Cristo - morto, sepultado e ressuscitado. Somos
chamados agora à comunhão com Deus e com o outro, naquele que ressuscitou.
Deus realmente nos une em íntima comunhão através do Espírito Santo. Ele
outorgou o Espírito como um dom a toda a comunidade da fé, para guiá-la e lhe
trazer maturidade.
21. - A Koinonia, quer seja entre Deus ou entre os seres humanos, deve
ser vista como um dom de Deus. Embora tendo sido criado “à imagem de Deus”,
tanto o macho como a fêmea (Gênesis 1:27), para habitar em comunidade, o homem
Adão rompeu sua relação com Deus e de um com o outro, o que poderia ter
tornado possível essa comunhão. A longanimidade amorosa de Deus foi suficiente
para salvar a humanidade decaída, através de Israel, mas acima de tudo, através
do Filho de Deus, Jesus Cristo, o novo Adão, tendo o Filho de Deus feito por nós
o que jamais poderíamos ter feito sozinhos. O dom gratuito de Deus em Cristo
sobrepujou de longe os efeitos da transgressão de Adão (Romanos 5:15-17).
22. - O Espírito continua a fazer na Igreja a obra redentora que Deus
começou no Filho. Pelo batismo o Espírito une os diversos membros –judeus e
gentios, servos e livres, machos e fêmeas – e, poderíamos acrescentar:
pretos e brancos, ricos e pobres, etc. – em um só corpo. (1 Coríntios
12:12,13; Gálatas 3:28). O Espírito é o campo de toda a dimensão da vida da
Igreja - adoração, crescimento interior, testemunho a um mundo incrédulo e
proclamação do Evangelho (Atos 2:42-47; 4:32-37). O Espírito concede
diferentes “dons”, com os quais os membros podem construir o corpo de Cristo
e desempenhar a missão da Igreja (1 Coríntios 12:4-11; 27-30; Romanos 12:4-8).
23. - A Koinonia, que se encontra no âmago da Igreja, é o resultado da
diversificada atividade do Espírito. Na Igreja há “diversidade
de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Coríntios 12:4),
a variedade de serviço, de obras, mas “somos um só
corpo em Cristo” (Romanos 12:5). Quando os batistas se
referem à Igreja, eles se referem principalmente à congregação local,
reunida pelo Espírito em obediência e serviço à palavra de Deus. Os católicos
se referem à Igreja como a comunidade de fé, esperança e caridade, uma
estrutura visível, estabelecida e mantida por Cristo na terra (“Constituição Dogmática Sobre a Igreja”, 8). Conquanto, tanto os
batistas como os católicos admitam a presença de Cristo na Igreja (Mateus
18:20; 28:20), eles o entendem de modo diferente. Os católicos acreditam que a
Igreja é uma “sociedade guarnecida com
órgãos hierárquicos e o corpo místico de Cristo (os quais) não devem ser
considerados como duas realidades... mas de preferência formando uma realidade
interligada, composta dos elementos divino e humano” (Ibid). Já os
batistas afirmam que a Igreja é divina quanto à sua origem, missão e escopo,
mas humana quanto à sua existência e estrutura histórica.
D. - Nosso Testemunho ao Mundo
24.
- Recebemos o dom da fé como um dom a ser compartilhado com os outros. Jesus
foi enviado por Deus, a fim de proclamar as Boas Novas divinas (Marcos 1:14;
Lucas 4:18; 7:22). Ele enviou os Doze (Mateus 10:5 e segs.) e os Setenta (Lucas
10:1 e segs.) para entregar a mesma mensagem. Após sua ressurreição, ele os
comandou a irem por todo o mundo e fazerem discípulos (Mateus 28:16-20) e os
comissionou a serem suas testemunhas até os confins da terra (Atos 1:8). A
Igreja tem se engajado nessa tarefa através de toda a sua história.
25. - Tanto os batistas como os católicos romanos respondem a essa
convocação através de um ministério de evangelismo e evangelização. Os
batistas enfatizam tipicamente a livre resposta pessoal dos indivíduos ao
Evangelho, em geral com negligência da responsabilidade corporativa. Contudo,
nos últimos anos, alguns grupos batistas têm se concentrado menos no indivíduo
e mais nas implicações corporativas sociais de evangelismo/evangelização.
26. - Os católicos romanos aplicam o termo “evangelização” à
“primeira proclamação” do Evangelho aos não crentes (“Exortação
Apostólica Sobre Evangelização”, 21) e também no sentido mais amplo de
renovação da humanidade, testemunho, adesão interior, entrada na comunidade,
aceitação de sinais e iniciativa apostólica. Esses elementos são
complementares e mutuamente enriquecidos (Ibid, 24). Cristo é o centro e o
objetivo final do esforço missionário. Contudo, a ênfase católica sobre a
encarnação encoraja uma preocupação maior para a “inculturação” do que
o faz a ênfase batista sobre a redenção da humanidade decaída pelo pecado.
Isso também abre caminho para se atribuir aos sacramentos um lugar mais
proeminente na tarefa da evangelização.
27. - Recentes avanços ecumênicos têm conduzido ao aumento da apreciação
dos católicos romanos pelos batistas entre ambos os grupos e em relação a
outros grupos cristãos, podendo abrir caminho ao testemunho comum. Documentos
do Vaticano II e após conversações sobre alguns fatores terem surgido, unindo
os católicos e os protestantes: fé, batismo, compartilhamento da vida de graça,
união no Espírito Santo, vida cristã e discipulado. Conquanto o Vaticano II
tenha mantido que a Igreja de Cristo (“Constituição Dogmática”, 8), “constituída e organizada no
mundo como uma sociedade, subsiste na Igreja Católica”, ele também reconhece
que “alguns e até mesmo muitos dos mais
significativos elementos e concessões, que juntos chegam a edificar e dar vida
à própria Igreja, podem existir além das fronteiras visíveis da Igreja Católica.”
(“Decreto Sobre o Ecumenismo”, 3).
28. - Os batistas e os católicos romanos diferem entre si com respeito
à salvação dentro das religiões não cristãs. O Vaticano II pôs termo à
atitude negativa em relação às que haviam prevalecido na Igreja, e tornou
possível o diálogo com as mesmas sobre alguns problemas comuns do presente, os
quais carecem da atenção global. O Concílio expressou a sua alta estima pelo
modo de vida, preceitos e doutrinas dessas religiões, os quais “refletem um lampejo daquela verdade que ilumina todos os homens”
(“Declaração Sobre o Relacionamento da
Igreja Com as Religiões Não Cristãs”, 2). Ao mesmo tempo, o Concílio
deixou claro que “a Igreja proclama e tem o dever de proclamar, sem falha,
Cristo, como o “caminho, verdade e vida”
(João 14:6), no qual os homens encontram
a totalidade da vida religiosa e através do qual Deus reconciliou todas as
coisas consigo mesmo” (2 Coríntios 5:18-19)” (Ibid). Os batistas não
publicaram declarações importantes sobre a salvação através de outras
religiões, porém devem continuar estritamente no pronunciamento de sempre: “E
em nenhum outro há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome
há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos”
(Atos 4:12), citando, também, com freqüência João
14:6: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e
a vida; ninguém vem ao Pai, senão por mim”,
aplicando esta passagem em estrito sentido. Contudo, alguns batistas têm se
engajado no diálogo ou mantido conversações com representantes de outras
principais religiões mundiais. Igualmente, eles discernem a necessidade de uma
cooperação entre as religiões mundiais, a fim de que se resolvam com urgência
os problemas humanos.
E - Desafios ao Testemunho
Comum
29. - Respondemos às convocações como arautos das Boas Novas, ao
proclamar o nome de Jesus à humanidade, de tal maneira que as pessoas sejam
levadas a crer em Jesus Cristo e a viver como verdadeiros cristãos. À medida
em que nos esforçamos para tornar nossas vidas em testemunhos da fé que nos
sustenta, certos interesses de preocupação comum vão emergindo.
30. - Uma importante área de preocupação comum é a linguagem que
usamos em nosso testemunho comum. “Testemunho comum” significa que os cristãos,
mesmo não estando em comunhão absoluta entre eles, sustentam, um testemunho
conjunto em muitos aspectos vitais importantes, da verdade e da vida cristã.
Afirmamos que ele abraça a totalidade da vida: adoração divina, serviço
responsável, proclamação das Boas Novas, com vistas a homens e mulheres de
liderança, sob o poder do Espírito Santo pela salvação e ajuntamento destes,
no corpo de Cristo.
31. - Tendo em vista que “Para a liberdade
Cristo nos libertou” (Gálatas 5:1), buscamos meios através dos
quais as pessoas possam responder ao Evangelho, em liberdade e amor. Também
confessamos que a competição entre os missionários cristãos tem sido muitas
vezes uma pedra de tropeço aos que tentam pregar o Evangelho. Constantemente,
os missionários cristãos são acusados de “proselitismo”, o qual, tanto no
meio secular como no religioso, tem levado a uma conotação pejorativa do uso
de métodos com compromisso, em vez de intensificar a liberdade do crente e do
Evangelho.
32. - Uma supervisão histórica nos mostra que a conotação de
“proselitismo” tem mudado consideravelmente. Na Bíblia ele era isento de
conotação negativa. Prosélito era alguém que, pela crença em Yavé e aceitação
da lei mosaica, tornava-se membro da comunidade judaica. O cristianismo se valeu
desta significação para descrever uma pessoa que se convertia do paganismo. A
obra de missão e o proselitismo eram considerados conceitos equivalentes, até
tempos recentes.
33. - Mais recentemente, o termo “proselitismo” tem sido aplicado
por alguns, em sentido pejorativo, às tentativas de várias confissões cristãs
de ganhar membros umas das outras. Isso levanta a delicada questão referente à
diferença entre evangelismo/evangelização e proselitismo.
34. - Como batistas e católicos, concordamos que evangelização é a
obra primordial da Igreja, e que todo cristão tem o direito e o dever de
compartilhar e divulgar a fé. Também concordamos em que a fé é a livre
resposta pela qual as pessoas, tomadas pela graça de Deus, se comprometem com o
Evangelho de Cristo. É contrário à mensagem de Cristo, aos meios da graça
divina e ao caráter pessoal da fé, que seja empregado qualquer meio para
reduzir ou impedir a liberdade de uma pessoa de fazer um básico compromisso
cristão.
35. - Acreditamos que existem certas marcas que poderiam caracterizar o
testemunho que mantemos no mundo. Afirmamos:
- Que o testemunho deve ser dado em espírito de amor e humildade.
- Que seja permitido a quem nos dirigimos total liberdade de tomar uma
decisão pessoal.
- Que não se proíba, quer ao indivíduo ou às comunidades, manter o
testemunho de suas próprias convicções, inclusive religiosas.
36. - Também admitimos que existem certos aspectos negativos de
testemunho que deveriam ser evitados, reconhecendo, em espírito de
arrependimento, que nós ambos temos sido culpados de proselitismo no sentido
negativo. Afirmamos, que deveríamos evitar as coisas que seguem:
- Todo tipo de violência física, compulsão moral ou pressão psicológica
(por exemplo, notamos o uso de certas técnicas de propaganda de massa na mídia,
que poderia exercer indevida pressão sobre os leitores/telespectadores);
- ofertas explicitas ou implícitas de vantagens temporais ou materiais
tais como prêmios para a mudança da fidelidade religiosa de alguém;
- O uso impróprio de situação de pesar, de fraqueza ou falta de educação
para conduzir uma pessoa à conversão;
- O uso de pressão política, social ou econômica como um meio de se
obter conversão, ou de impedir os outros, inclusive as minorais, do exercício
de sua liberdade religiosa.
- Lançar suspeitas injustas ou descaridosas sobre outras denominações.
- Comparar as forças e ideais de uma comunidade com as fraquezas e práticas
de outra comunidade.
37. - Sobre essa base recém colocada de compreensão do proselitismo,
concordamos que a liberdade do Evangelho e do indivíduo deve ser respeitada em
qualquer processo de evangelismo/evangelização. Contudo, estamos cientes de
que muitas vezes a acusação de proselitismo em sentido negativo poderá ser
feita quando uma comunhão entra em contato com o evangelismo/evangelização do
outro. Cada esforço deve ser feito para se manter o conhecimento e mútuo
compromisso e para respeitar a integridade e o direito de todos os indivíduos e
comunidades de viverem e proclamarem o Evangelho de acordo com as suas próprias
tradições e convicções. Neste mundo por demais secularizado, as divisões e
disputas religiosas entre e os grupos cristãos podem se tornar em tal escândalo
que os não crentes não possam ser atraídos para o Evangelho.
38. - Desde o tempo de Constantino até os dias de hoje, a igreja cristã
tem experimentado uma ampla variedade de relacionamentos com a autoridade
secular, onde, habitualmente, lei e concordata, autoridade civil e igreja têm
estado interligadas em muitas áreas da vida. Infelizmente, porém, essas
inter-relações têm algumas vezes conduzido à intolerância e conseqüente
sofrimento. Em alguns países tradicionalmente católicos romanos, os batistas
foram muitas vezes privados dos seus completos direitos e da liberdade
religiosa. Por outro lado, nas áreas onde os batistas tinham maioria numérica
e gozavam de maior poder econômico e social, os católicos romanos, mesmo
gozando aparentemente de todos os direitos civis, algumas vezes sofreram
discriminação, injustiças e intolerância.
39. - Os batistas estiveram entre os primeiros a advogar a separação
entre a Igreja e o estado. Tendo sido organizada numa era de luta e perseguição
religiosa, os batistas têm historicamente defendido a liberdade de consciência
e de prática religiosa, não somente para os batistas como para todas as
pessoas.
40. - Historicamente os católicos romanos e os batistas têm divergido
sobre a relação da Igreja com a autoridade civil e na questão da liberdade
religiosa. Com a “Declaração Sobre a
Liberdade Religiosa” do Vaticano II, o Catolicismo Romano declarou
enfaticamente que “a pessoa humana tem
direito à liberdade” (2) e que essa liberdade significa que todos os
homens e mulheres “devem ficar imunes à
coerção da parte de indivíduos ou grupos sociais e de qualquer poder humano,
de tal modo que em assuntos religiosos ninguém seja forçado a agir de modo
contrário às suas próprias crenças” (Ibid). O Concílio declara que
essa liberdade está “baseada na exata
dignidade da pessoa humana, conforme está expresso na revelada Palavra de Deus
e da própria razão” (2). Visto como a liberdade religiosa é um direito
que flui da dignidade da pessoa, as autoridades civis têm a obrigação de
respeitar e proteger esse direito.
41. - Tanto os batistas como os católicos concordam que a liberdade
religiosa tem suas raízes no Novo Testamento. Jesus proclamou o reino de Deus,
convocando as pessoas a uma profunda conversão pessoal (Marcos 1:14-15), a qual
exige que uma pessoa seja capaz de responder livremente à oferta da graça
divina. O apóstolo Paulo resistiu a todas as tentativas de coerção nas
igrejas quanto às práticas ou crenças contrárias à liberdade conseguida
pela morte e ressurreição de Cristo (Gálatas 5:1).
42. - Na área da liberdade religiosa, católicos romanos e batistas
podem explorar, frutiferamente, diferentes formas de testemunho comum. Ambos os
grupos lutam pela própria existência, em situações onde a liberdade
religiosa não é respeitada. Ambos estão preocupados com os que sofrem
perseguição por causa de sua fé.
43. - Em certos países tradicionalmente católicos romanos, as
constituições e leis civis foram feitas antes que o Vaticano II as tivesse
mudado, no sentido de refletirem o ensino do Concílio. Em alguns lugares, onde
há predominância batista, a tradicional exigência batista sobre a separação
da Igreja e do Estado foi declarada como um meio de assegurar que a liberdade
religiosa fosse enfatizada.
Ambos os grupos precisam exercitar maior vigilância no sentido de
garantir o respeito à liberdade religiosa.
44. - Os cristãos têm o direito e o dever de levar os seus pontos de
vista e valores religiosos ao debate público sobre a estrutura e direção de
uma sociedade. Isso pode incluir também o esforço para incorporar os seus
valores à lei civil. Contudo, ao agir desse modo, eles deveriam sempre estar
sensíveis e considerar os direitos da liberdade da consciência individual e
das minorias e o bem estar da sociedade como um todo. Eles deveriam envidar
esforços no sentido de cumprir a ordem de Jesus de amar ao próximo como a si
mesmo e sua proclamação de que Deus é o Pai amoroso tanto dos justos como dos
injustos, preocupando-se com os grupos marginalizados em sua sociedade.
III - Áreas Carecendo de Contínua Exploração
A - Autoridade
e Método Teológico
45. - As conversações entre os batistas e os católicos romanos têm
freqüentemente trazido à tona diferentes visões e uso da autoridade e do método
teológicos. A razão teórica para isso é clara: Os batistas confiam somente
nas Escrituras, conforme interpretadas sob a orientação do Espírito Santo, um
princípio da Reforma. Os católicos romanos recebem a orientação divina das
Escrituras conforme interpretadas à luz da Tradição, sob a liderança do
Magistério, num processo comunal orientado pelo Espírito Santo.
46. – Mesmo assim, as diferenças não são tão sérias, como esta
formulação poderia sugerir. No Vaticano II a Igreja Católica Romana agiu com
cautela e em detalhe, no que se refere à relação entre a Escritura e a Tradição.
(“Constituição Dogmática da Revelação
Divina”, 2). Ela se esforçou para alcançar e expressar a compreensão de
uma relação entre a Escritura, a Tradição e o ensino oficial da Igreja
(Magisterium). Cada um destes tem o seu próprio lugar na apresentação da
verdade de Jesus cristo. O lugar de um não é idêntico ao do outro, mesmo que
a visão católica romana destes três combinem juntamente, no sentido de
apresentar a revelação divina. Por outro lado, os batistas invocam a sua herança
escriturística, tão decisivamente como os católicos romanos citam a Tradição,
geralmente afirmando que esta tem a mesma autoridade que a Escritura, e contudo
a ela se apegando vigorosamente.
47. - A teoria e o fato devem ser encarados em conjunto, de modo que
possam aliviar a ansiedade existente entre os dois lados. Os católicos romanos
sempre querem saber como os batistas encaram as cruciais declarações teológicas
feitas pela Igreja, em seus pronunciamentos através da história, como por
exemplo as grandes declarações teológicas de Nicéia e Constantinopla. Em
resumo, será que estas subscrevem a ortodoxia de qualquer espécie? Verificando
certos dogmas, mais embasados na Tradição do que na Escritura, os batistas
indagam se os católicos impõem quaisquer limites ao que pode ser definido
como, por exemplo, os dogmas da Imaculada Conceição e da Assunção de Maria.
Será que a Igreja pode simplesmente aprovar qualquer coisa que desejar como
doutrina oficial? O item chave que aqui precisa ser discutido é o do
desenvolvimento da doutrina.
B - O Esboço da Koinonia
48. - Outro item que distingue nossas comunhões é o que trata de modos
diferentes pelos quais a koinonia do Espírito se torna concreta. Obviamente, os
católicos e os batistas percebem a obra do Espírito Santo através de
diferentes estruturas. Para os batistas a koinonia é expressa principalmente
nas congregações locais reunidas voluntariamente sob a liderança do Senhor
Jesus Cristo, para adoração, companheirismo, instrução, evangelismo e missão.
De acordo com a sua herança, eles reconhecem a direção do Espírito através
da interdependência de associações, convenções, alianças e outros corpos
destinados a proclamar as Boas Novas e a desempenhar a missão mundial de
Cristo. Mesmo assim, eles têm tentado evitar o desenvolvimento de estruturas
que possam ameaçar a liberdade dos indivíduos e a autonomia das congregações
locais. Para os católicos romanos a koinonia efetuada pelo Espírito na
congregação local é simultaneamente uma koinonia com outras congregações da
igreja universal. Ao mesmo tempo eles reconhecem a atividade do Espírito nos laços
espirituais e institucionais que unem as congregações, nas dioceses presididas
pelos bispos, os quais unem as dioceses à Igreja total presidida pelo Bispo de
Roma. Vital ao futuro progresso ecumênico seria haver mais discussão sobre o
relacionamento entre o Espírito e as estruturas.
C - Relação entre Fé,
Batismo e Testemunho Cristão
49. - As conversações revelaram uma crescente preocupação comum
entre os batistas e os católicos romanos sobre a autenticidade da fé, do
batismo e do testemunho cristão. Aqui existem óbvias divergências. Os
batistas, vendo a fé principalmente como a resposta do indivíduo à livre graça
de Deus, insistem em que resposta à fé precede o batismo. Todavia, as congregações
batistas variam em seu modo de receber pessoas batizadas na infância por outras
congregações. As práticas acontecem desde o rebatismo de todas as pessoas que
não receberam o batismo das mãos de um ministro batista até a aceitação de
todas as pessoas batizadas de toda maneira, quer na infância, quer na idade
adulta. Os católicos romanos consideram os sacramentos - como o batismo - num
contexto de fé, como um exercício do poder do Cristo ressurreto, comparável
àquele exercitado por Jesus quando curava os enfermos e libertava os possessos.
Enfatizando a fé corporativa como a natureza individual da fé, eles batizam as
crianças e as catequizam através de um processo culminando em total participação
na Igreja.
50. – Ambas as apreciações apresentam algumas dificuldades. Os
batistas não concordam em como as crianças pertencem à Igreja, antes do
batismo. Algumas igrejas batistas têm usado, hoje em dia, o rito da “dedicação
da criança”, mas a maioria não tem esse costume. Os “rebatismos”
batistas (por estes considerados como um primeiro batismo) podem ofender os
cristãos de outras comunhões, visto como podem sugerir que estes não são
realmente cristãos, e porque parecem violar a vocação escriturística de
“um só batismo”. Os católicos romanos e outros que praticam o batismo
infantil, por outro lado confrontam o problema de que não existe nas Escrituras
uma clara evidência dessa prática. O batismo infantil parece, então, ser
apoiado, principalmente, na Tradição e por uma compreensão corporativa da fé.
51. - O âmago do problema a ser aqui discutido parece ser a natureza da
fé e a natureza dos sacramentos (chamados ordenanças pela maioria dos
batistas), o qual levanta uma série de questões com os quais os batistas e os
católicos precisam lidar juntos. Será a fé apenas uma resposta individual ao
dom de Deus? Pode a fé de uma comunidade suprir a fé pessoal de uma criança?
Pode-se falar de uma “comunidade de fé”, isto é, do corpo de Cristo, como
sendo ela própria objeto de uma fé comum, na qual os crentes participam? Serão
os sacramentos sinais visíveis de um precedente compromisso interior? Serão
eles os meios através dos quais o próprio Cristo efetue a sua obra de cura e
salvação? O que significa a expressão: o batismo é “um sacramento de fé”?
Tais questões não poderão ser resolvidas se não obtivermos as respostas.
D - Elucidação de termos
chaves
52. - Estamos conscientes de que a tensão religiosa entre as duas
comunidades pode surgir da compreensão diferente e uso de termos idênticos. Um
conceito fundamental em ambas as comunhões é o de “missão’. Em seu mais
lato sentido, os batistas falam da missão da Igreja para glorificar a Deus,
tornando-o conhecido através da fé em Jesus Cristo. Os católicos romanos também
falam de “missão”, em seu mais amplo sentido, como tudo que a Igreja faz no
serviço do reino de Deus. Os batistas entendem missões (no plural, no sentido
de movimento visível da Igreja) como um dos meios pelos quais a Igreja realiza
a sua missão no mundo.
53. - Os batistas quase nunca usam o termo “evangelização”,
preferindo o termo “evangelismo”, para descrever como os crentes individual
ou coletivamente, levam o Evangelho de Cristo ao mundo, quando “iam por toda a parte, anunciando a palavra”
(Atos 8:4). A palavra “evangelização” até
pouco tempo, não era usada freqüentemente dentro do catolicismo romano. A
definição mais efetiva pode ser encontrada na Exortação Apostólica do Papa
Paulo VI “Sobre Evangelização no Mundo
Moderno” (1975). Se ela devesse ser expressa numa sentença, a melhor
maneira seria dizer que a Igreja evangeliza quando procura converter unicamente
através do Divino Poder da Mensagem que ela proclama, tanto as consciências
pessoais como coletiva das pessoas, atividades nas quais elas se engajam, e as
vidas e o concreto ambiente que são delas (18). A Evangelização é, portanto,
um amplo conceito, abrangendo três atividades principais: a) - evangelismo,
entendido como a clara pregação do evangelho aos que não freqüentam uma
igreja, dentro de sua sociedade ou cultura; b) - atividade missionária,
a qual envolve a proclamação cultural do Evangelho da cruz; c) - atividade
pastoral de educar e aprofundar o conhecimento do Evangelho entre os que já
se comprometeram com o mesmo.
54. - Mesmo havendo uma crescente divergência na terminologia, o
Evangelismo/Evangelização assume formas diferentes dentro das duas comunhões.
Os batistas enfatizam a conversão como sendo um ato pessoal de fé e aceitação
de Jesus como Senhor e Salvador, dando precedência em conduzir as pessoas a uma
explícita confissão de fé, através da proclamação do Evangelho. Os católicos
romanos acentuam que, pelo batismo, uma pessoa se torna nova, em Cristo, na
Igreja, daí que a Igreja enfatiza o estabelecimento de uma comunidade cristã,
através da proclamação da palavra e de um ministério de presença e serviço.
55. - Contudo, dentro dessas diferentes ênfases, existem fortes
semelhanças. Ambas as comunhões acentuam a necessidade dos incrédulos e dos não
freqüentadores de igrejas a ouvir e viver a mensagem da salvação, conforme é
expressa nas Escrituras, ambas se esforçando para obedecer ao mandamento de
Jesus, de amar ao próximo, engajando-se em obras de misericórdia e caridade,
tanto na pátria como nos países de “missão”.
E - O
lugar de Maria na fé e na prática
56. - A devoção a Maria tem sido tradicionalmente uma área de grande
divergência entre católicos romanos e batistas. Ela também surgiu em nossa
discussão como um desafio ao testemunho comum. Os batistas em geral têm dois
problemas principais com respeito à devoção mariana: 1) - Ela parece
comprometer a exclusiva mediação de Jesus como Senhor e Salvador; 2) - As
doutrinas marianas, como as da Imaculada
Conceição e da Assunção, que
os católicos proclamam como sendo infalíveis, devendo ser cridas como dogmas
de fé, parecem ter pouco respaldo explícito na Bíblia. Conforme os católicos
romanos, a devoção a Maria não compromete o papel exclusivo de Cristo,
estando enraizada em sua íntima relação com Jesus e refletindo o seu contínuo
papel na história da salvação, tendo uma base sólida no Novo Testamento.
57. - Por causa da longa história de incompreensão e das dificuldades
teológicas e derivados inerentes às doutrinas marianas, não se espera um
consenso em futuro próximo. Nessa área da devoção mariana, a qual evoca não
apenas fortes emoções como fortes convicções, em ambas as comunhões, a exigência
de uma compreensão mútua a respeito é colocada em teste. Os católicos
romanos devem tentam compreender e simpatizar com os sérios problemas que os
batistas têm com respeito à devoção e doutrinas marianas. Os batistas devem
tentar entendê-los, não apenas nos campos bíblico e teológico, mas também
sob a luz da piedade popular e prática religiosa.
F - Meios
Concretos de Oferecer um Testemunho Comum ao Evangelho
58. - As conversações entre os batistas e os católicos romanos não
devem levar, em futuro próximo, a uma total comunhão entre os nossos dois
corpos. Mesmo assim, tal fato não deveria evitar o esboço de meios concretos
para testemunharem em conjunto, no tempo presente. Seria útil pensar em vários
níveis - internacional, nacional, regional e local – nos quais os católicos
e os batistas pudessem agir e falar concretamente. Essa cooperação já está
acontecendo de várias maneiras: tradução das Escrituras em línguas indígenas;
educação teológica, preocupação comum e auxílio compartilhado em
confrontar a fome e outros desastres naturais, nos cuidados da saúde para os
menos favorecidos; defesa dos direitos humanos e liberdade religiosa; ação em
favor da paz e da justiça e no fortalecimento da família. Os batistas e os católicos
poderiam fortalecer o seu testemunho comum, ao falar e agir mais em conjunto,
nessas e em outras áreas. Uma completa lista de itens vitais à sobrevivência
da humanidade permanecem diante de nós.
A oração de Jesus ao Pai: “Para que todos
sejam um, como tu, ó Pai, o és em mim, e eu em ti; que também eles sejam um
em nós, para que o mundo creia que tu me enviaste”
(João 17:21) tem dado um sentido de urgência às nossas conversações.
Testificamos que em todas as sessões ocorridas nos últimos cinco anos
(1984-1988), tem havido um espírito de mútuo respeito e de crescente
entendimento. Temos buscado a orientação do Senhor da Igreja e dado honra e glória
a Ele pela presença e orientação do Espírito Santo. Oramos para que “aquele que em vós começou a boa obra a aperfeiçoará até ao dia
de Jesus Cristo” (Filipenses 1:6).
Conversações Internacionais entre Batistas e Católicos Romanos, de
1984 a 1988
PARTICIPANTES
|
BAPTISTS Co-Chairman
Pablo Deiros
E. Glenn Hinson
Paolo Spanu
G. Noël Vose
Michael Zidkov Co-Secretary |
CATHOLICS Co-Chairman
Rev. Jerome Dollard, OSB
Rev. John R. Donahue, SJ
Rev. Msgr Carlo Ghidelli
Rev. Karl Müller, SVD
Rev. Joseph Komonchak
Rev. Kilian McDonnell, OSB Co-Secretary
Msgr. John A. Radano |
Documento
em inglês encontrado na internet:
http://www.prounione.urbe.it/dia-int/b-rc/doc/i_b-rc_report1988.html
Traduzido por Mary Schultze, julho 2005
Divulgado pelo
CENTRO DE PESQUISAS RELIGIOSAS
Caixa Postal 950
25951-970 Teresópolis, RJ
Telefax: (21) 2643-2325
E-mail: cpr2005@terra.com.br
INTERNET: www.desafiodasseitas.org.br
Pastor responsável: Paulo C. Pimentel